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Jornalismo_Digital

Quer que desenhe? Infografia e Jornalismo

Por Gilberto Rios

Se alguém numa redação de jornal perguntar a você se precisa desenhar para ensinar sobre um assunto, essa pessoa é o infografista. Ele não só desenha, como pode usar outros recursos multimídia pelo mesmo propósito: informar melhor. Quem conta é Tattiana Teixeira, doutora em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, em seu trabalho “Infografia digital em base de dados: o estado da arte”, apresentado hoje (12/12) no auditório da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

Atualmente, Tattiana é professora na Universidade Federal de Santa Catarina, onde ministrou a disciplina Infografia Jornalística e desenvolve a pesquisa “A história da infografia jornalística no Brasil – uma perspectiva a partir dos anos 80”. Ela é autora do livro Infografia e Jornalismo: conceitos, análises e perspectivas (EDUFBA, 2011) e aposta que “quem se especializar em infográfico para web tem emprego garantidíssimo”.

Tattiana Teixeira é pesquisadora em infografia na Universidade de Santa Catarina

Tattiana Teixeira é pesquisadora em Infografia na Universidade Federal de Santa Catarina

Imagine que você ouve um mp3 estéreo com dois canais de áudio. Do lado direito, por exemplo, é possível ouvir alguns arranjos instrumentais e os backing vocals. Do lado esquerdo, canta o vocalista e outros instrumentos. A composição é esse híbrido entre as duas partes que se unem e resultam na música como ela tem que ser. Se você ouve só um dos lados pode até gostar, mas não é a música necessariamente.

A comparação cabe para explicar o que é um infográfico jornalístico. Para existir, ele precisa essencialmente de uma parte textual e uma que é gráfica. As partes se unem e se complementam, dando ao leitor mais possibilidades de alcançar a informação. Outros quatro componentes não podem faltar quando se fala no assunto: título, texto de entrada, autoria e fontes.

“Estamos falando aqui de uma tendência no fazer jornalístico atual voltado para a web e os dispositivos portáteis”, afirma Tattiana. Ela ainda aponta para a superficialidade ou a resistência de algumas redações em adotar o recurso, seja por falta de experiência ou de suporte para a produção de conteúdo. “Dominar o programa, ter uma boa equipe de design, uma redação alinhada e saber pensar a informação infograficamente”, sugere a pesquisadora.

“Havia restrição quanto à postagem de vídeo na web, e o infográfico surge para suprir essa necessidade”, relembra Tattiana. Estamos falando de 2009. Há três anos, a condição de acesso do internauta médio era diferente da atual: sem banda larga, o navegador se espremia onde dava. E as redações de jornais também. “A transformação desse cenário altera a web e a infografia, que vão abrindo mais possibilidade de criação”, explicou.

Fases – Para fins acadêmicos, estudos de infografia segmentam o tema em quatro fases, cada uma agregando componentes próprios. Do mero uso de figura e texto até recursos mais complexos, permitindo a entrada virtual em museus.

“Pegar o infográfico do impresso e publicar na internet. Só isso”, resume Tattiana. A primeira fase é bem modesta, seja conceitualmente quanto em execução.

A segunda geração complexifica o tema e enxerga fagulhas de potenciais na web. Interatividade é, sem dúvida, o que define essa fase, uma vez que o leitor pode navegar pelo infográfico e a ele é entregue o “domínio da narrativa”, isto é, por onde começar a ler e o que será lido. Ilustra bem esse conceito o infográfico da matéria Tapuiassauro, o novo dinossauro do Brasil, produzida e veiculada pelo site do jornal O Estado de S. Paulo em setembro de 2010.

“Quando o acesso à uma web de qualidade passa a ser um bem comum, pronto: as opções de criação de infografias ficam à deriva da criatividade e da competência jornalística. Recurso para criar não falta”, conta Tattiana. Esse é o cenário da terceira geração: uma geração multimídia, marcada pela multiplicidade de artefatos que ampliam ainda mais a possibilidade de acompanhar um fato, trazendo-o ainda mais perto de se tornar uma experiência do próprio leitor. Criação da equipe do jornal El País, o infográfico especial para explicar o acidente no aeroporto de Congonhas mostra o caso passo-a-passo, por exemplo. Não muito diferente fez o jornal The New York Times ao abrir o Museu Metropolitano de Arte de Nova York, um dos mais frequentados do mundo. Com uma diferença: ninguém nem precisa levantar da cadeira para visitar a exposição.

Há ainda o que seria o expoente para o surgimento de uma quarta geração de infográficos jornalísticos. Essa estaria voltada para o conceito da explicação facilitada ao explicar dados. Tattiana se apropria da fala de uma das autoras que ela utiliza (Adriana Alves, 2009) para definir os produtos dessa geração como aqueles “produzidos tendo como mola propulsora o cruzamento ou inserção de base de dados nas produções e cujo nível de complexidade se eleva por requerer do usuário uma interação”, explica. Também o site do The New York Times, na matéria A map of Olympic Medals mostram o que pode ser essa nova geração incipiente.

Formação – Tattiana acredita, ainda, que é preciso inserir disciplinas sobre o tema em larga escala nas faculdades de Comunicação. Ela atenta que apenas três escolas no Brasil estão preocupadas em discutir o tema.

“O argumento de que infográfico não é algo que Jornalismo faz é totalmente falso e, se real fosse, cairíamos para trás porque nas escolas de Design também não existe a disciplina”, aponta a pesquisadora, quem continua: “um [campo de estudo] diz que é coisa do outro”.
Convicta de que o jornalista sério é aquele que tem compromisso com o público e utiliza de todos os recursos possíveis para tornar o repasse de informação mais preciso, Tattiana acredita que “isso só vai mudar quando a gente [profissionais de Jornalismo] conseguir mudar nossas faculdades”, conclui.

 

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