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Resenha sobre o Dossiê “Jornalismo Pós-Industrial” (Universidade Columbia) Parte II – As Instituições

Por: Camila Martinez, Cátia Lima, Juliana Almirante, Lílian Galvão, Tácio Santos e Vander dos Santos

O relatório/dossiê preparado por C.W. AdersonEmily Bell e Clay Shirky, membros do Tow Center for Digital Journalism da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia tem como título “Jornalismo Pós-Industrial: Adaptação aos novos tempos”. Composto por Introdução, três partes (Jornalistas, Instituições e Ecossistema) e conclusão (chamada de Movimentos Tectônicos), o trabalho analisa a imprensa norte-americana, porém traz lições úteis a todos os que direta e indiretamente fazem parte da indústria jornalística, independente de onde estejam e trabalhem. É na seção Instituições que focamos nossas atenções e levantamos reflexões sobre os rumos do jornalismo diante dos desafios impostos pelas novas tecnologias.

Para este trabalho, a palavra de ordem para as instituições jornalísticas diante da nova conjuntura digital é “adaptação”. O dossiê traz uma discussão polarizada sobre o futuro destas instituições jornalísticas que se divide entre a história de declínio e colapso institucional e a história de renascimento institucional. Entretanto, haveria ainda uma terceira que seria, inclusive, a mais importante de todas: a história de adaptação institucional.

Para os pesquisadores Anderson, Bell e Shirky, “o futuro da indústria jornalística será decidido pelo modo como novas instituições passam a ser velhas e estáveis e como velhas instituições se tornam novas e flexíveis”. Com isso, entende-se que instituições jornalísticas, mesmo iniciantes, podem já começar sua atuação de forma “velha e estável” se insistem em seguir a tradicional – e decadente – fórmula de se fazer jornalismo. Talvez uma melhor palavra que “estável” seria “conservadora”, visto que a empresa estaria presa a velhos hábitos de trabalho, resistente a mudanças. Por outro lado, instituições veteranas se renovariam ao passo que investem em novos processos e se adaptam às novas possibilidades tecnológicas.

Muito se fala de instituição, mas o que, de fato, isto seria? Para este relatório, instituição é uma série de normas sociais que criam padrões estáveis de comportamento e não se limitam à estrutura física da empresa. Justamente pelo fato de possuírem hábitos solidificados, as instituições, em geral, se mostram resistentes a mudanças, pois se questiona a eficiência econômica, o valor normativo e o imperativo administrativo desta. Porém, a adaptação não é algo impossível. Os autores comparam as instituições jornalísticas capazes de se adaptar com navios de guerra: quando enfim mudam de curso, avançam com força e velocidade impressionantes.

Antes de tudo, percebe-se que é preciso haver uma mudança de pensamento de editores e gestores e a presença de processos dificulta mais o avanço do que mesmo a ausência de dinheiro. Em tempos de crise nos negócios jornalísticos, com insistente declínio de investimentos publicitários, afirmar que a falta de verba é um problema secundário ressalta fortemente a necessidade, urgência e dificuldade de se alterar a mentalidade de editores e gestores.

Quando observamos o passado, vemos que mudanças no jornalismo vêm sendo feitas, pouco a pouco. Alterações não são uma novidade, não são uma necessidade dos últimos anos apenas. No século XIX, instituições jornalísticas passaram a cobrir os fatos de forma setorizada, o que resultou, com o tempo, nas editorias que hoje integram os jornais.

Com a internet, as primeiras instituições jornalísticas começaram, na década de 1990, a construir seus sites que, a princípio, eram espaço para uma mera transposição do conteúdo de suas edições impressas. Com o avanço tecnológico, entretanto, esta prática já não era mais satisfatória, o que obrigou uma reestruturação da prestação de informação em meio digital, desta vez com o uso de hiperlinks, interatividade, galeria de imagens, vídeos, etc. Nos últimos anos, tem crescido a necessidade de haver uma nova reestrutura, desta vez repensando processos para se adaptar às mais novas tecnologias a serviço do jornalismo.

Em relação às dificuldades para adaptar as práticas jornalísticas às novas demandas da era digital, o ex-editor de interação e mídias sociais do Wall Street JournalZach Seward, avaliou, em depoimento, que o sucesso de jornais tradicionais é mais um obstáculo para a adaptação. O antigo modelo de produção abriga determinados processos institucionais que limitam o jornalista, a exemplo dos sistemas de gestão de conteúdo. Como solução, o relatório da Universidade de Columbia aponta que o conservadorismo deve ser deixado de lado em nome de mudanças necessárias e essenciais à sobrevivência do negócio.

E muitas instituições jornalísticas tradicionais não sobreviveram à crise atual do jornalismo. Outras tentam se adaptar aos novos tempos, ao mesmo tempo em que surgem empresas com formatos e práticas inéditos. Entretanto, pode-se dizer que todas, de uma forma ou de outra, foram abaladas com as novidades da tecnologia.

É importante agora observar a adaptação das organizações tradicionais e a transformação de novas empresas jornalísticas (como um blog de notícias, por exemplo) em instituições estáveis, consolidadas. Um bom exemplo de evolução institucional é o Talking Points Memo (TPM), lançado em 2000 como um simples blog político individual. Com a ajuda financeira dos leitores, começou a contratar jornalistas em 2006. Com o passar do tempo recebeu investimentos, mudou sua aparência, foi premiado e sua redação já somava 28 membros em 2012. O TPM foi pioneiro no jornalismo interativo, com o uso de sugestões, informações e textos explicativos dos leitores nas reportagens.

Aparência do TPM em 2000

Aparência do TPM em 2000

Com a progressiva queda da receita publicitária, a previsão óbvia é de que as instituições serão ainda menores, haverá mais cortes de pessoal e de orçamentos. “Fazer mais com menos”, que já é uma espécie de mantra nas redações, será uma regra. Para se adaptarem às transformações culturais que ocorreram nas ultimas décadas e sobreviverem na era digital, as instituições deverão encontrar novas formas de gerar receita e os jornalistas precisarão dominar novas habilidades.

Se no antigo modelo, a meta final da produção era um produto único e acabado, no meio digital o conteúdo jornalístico pode ser complementado, modificado e reutilizado indefinidamente. O jornalista terá que compreender que o conteúdo não é mais descartado no primeiro uso. Em vez disso, é infinitamente reciclável e deve ser projetado para ser o mais reutilizável possível em outras plataformas, outros aparelhos, em novas matérias e até mesmo por outras organizações de comunicação numa interação perpétua. Para tirar proveito disso, o fluxo de trabalho deverá ser alterado para comportar essas novas possibilidades.

O jornalista do século XXI tem um sem número de novas fontes a serem incorporadas ao processo de produção jornalística, e uma forte tendência atual é a utilização de bases de dados como ferramenta de armazenamento e construção de novos conteúdos narrativos. Porém, as alterações não podem partir apenas destes profissionais. As instituições devem montar uma organização e um fluxo de trabalho na redação que deem respaldo ao jornalista nessa empreitada de reinvenção da indústria, pois esta, tal qual conhecemos, tem seus dias contados. Por outro lado, a atividade do jornalismo segue mais viva do que nunca.

 

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produto laboratorial da Oficina de Jjornalismo Digital da Facom/UFBA

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