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Resenha sobre o Dossiê “Jornalismo Pós-Industrial” (Universidade Columbia) Parte III – O Ecossistema

Por: Anaíra Lobo, Daniele Rodrigues, Lorena Vinturini, Luana Azevedo, Simone Melo, Tayse Argôlo e Wendel Silva

A terceira parte do dossiê, intitulada “O Ecossistema”, apresenta o conceito de “ecossistema jornalístico” para ilustrar as principais mudanças ocorridas na prática jornalística e nas relações entre os profissionais e as grandes organizações com o público desde a expansão da internet. De acordo com o dossiê, a popularização da internet “derruba muitas das velhas verdades sobre a imprensa e a mídia em geral”, uma vez que possibilita ao cidadão comum conectado a “produzir, copiar, modificar, compartilhar e discutir conteúdo digital” de forma veloz e em larga escala.

Para exemplificar essa quebra na linearidade da produção jornalística comum até o século XX – em que havia uma clara distinção de quem era jornalista profissional, referenciado como fonte e produtor de notícias, de quem era apenas consumidor e amador – o dossiê apresenta três casos em que o público deixa de ocupar apenas a posição de consumidor, sendo também produtor e divulgador da notícia.

No primeiro caso, em 2002, um historiador desmascarou um senador segregacionista quando, através de publicações em um blog, divulgou para o grande público diversos comentários preconceituosos que o político já havia feito ao longo de sua carreira. Um tempo depois do senador Lott ter dito que um de seus comentários foi um deslize, o historiador procurou Josh Marshall, que mantinha o blog Talking Points Memo (TPM), para mostrar uma lista de comentários racistas que Lott fizera desde a década de 1980. O arquivo de comentários de Lott era pessoal e o blog de Josh Marshall era considerado amador, entretanto, a divulgação das informações no meio digital fez com que Lott perdesse a liderança da bancada republicana.

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No segundo caso, o dossiê mostra que transmitir uma mensagem única por um único canal, como as redes de televisão e rádio, com a expansão da internet, já não significa ter o controle de uma determinada situação. Em 2005, quando o sistema de transportes londrino foi alvo de um atentado a bomba, o chefe da polícia metropolitana de Londres declarou à emissoras de rádio e TV que o problema era uma pane elétrica no metrô. Entretanto, pessoas comuns começaram a postar na internet fotos dos destroços dos lugares afetados,  e, analisando as imagens, percebeu-se que as mesmas contradiziam a declaração do policial. Cada post desses chegou a milhares e milhares de leitores.  Assim, o responsável pelas investigações voltou novamente ao ar em menos de duas horas para declarar que o episódio tinha sido realmente um atentado e que não havia mais informações a respeito dos atentados.

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No terceiro caso, ocorrido em 2010, uma série de reportagens sob o título “Dollars for Docs”, do site americano ProPublica, expôs o fluxo de fundos que escoa da indústria farmacêutica para médicos que receitam seus fármacos. Essa nova forma de investigação e exposição dos dados para o público comum feita pelo ProPublica trazia várias novidades, incluindo um banco de dados montado a partir de informações que companhias farmacêuticas são obrigadas a divulgar de forma simples e esmiuçada para o grande público. A reportagem ainda está no ar e ainda é possível pesquisar online sobre quanto as indústrias farmacêuticas movimentam nos Estados Unidos. Segundo o dossiê, o “Dollars for Docs” já possibilitou que outras 125 publicações, como a Forbes ainda este ano, lançassem reportagens sobre o tema devido à série original do site (por não ter fins lucrativos, o ProPublica pode atuar tanto no varejo como no atacado da notícia).

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O que o dossiê afirma é que, sobretudo por causa da disseminação da internet, não se pode pensar que o jornalismo está chegando ao fim, mas sim a linearidade do processo jornalístico e os conceitos de “amador” e “profissional”. Novas ferramentas digitais podem acelerar padrões atuais de apuração, edição e publicação de notícias. A internet possibilita que “consumir” seja apenas uma das funções do público, se assim ele desejar. O público agora pode participar, reiterar e produzir  de forma veloz e em grande escala. “A novidade é que tornar pública sua opinião já não requer a existência de um veículo de comunicação ou de editores profissionais”.

Ecossistemas e Controle

Esse tópico do dossiê foca em como as instituições jornalísticas vêm lidando com as mudanças ocasionadas pela popularização da internet. Ele, então, resgata os modos de produção jornalístico comuns desde seu início, no século XVII, em que para imprimir e distribuir um jornal diário era preciso uma equipe grande e qualificada, fixada e presa a uma redação. Com a chegada da internet, o amador pode ser um repórter “na acepção do termo” (“reportador”): as notícias do terremoto em Sichuan, na China, do pouso de emergência de um avião no Rio Hudson, em Nova York, e de massacres na Síria partiram, sempre, de relatos de gente na cena dos fatos.

O dossiê traz que uma das reações mais comuns dos meios de comunicação tradicionais a essas mudanças é a incapacidade de executivos de jornais reconhecerem os problemas que enfrentam ou irão enfrentar. Entretanto, segundo o documento, a transição para a produção e a distribuição digital de informação alterou de forma tão drástica a relação entre meios de comunicação e cidadãos que “seguir como sempre” nunca foi uma opção e uma reestruturação na instituição jornalística se faz necessária.

Como exemplo de adaptação positiva das instituições jornalísticas a essas mudanças, o dossiê traz o caso do Daily News, que criou o projeto Storm Tracker para cobrir a passagem do furacão Irene em Manhattan.

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Dessa forma, o dossiê define que: “Para o jornalista, e para instituições que o servem, a redução de custo, além de uma reestruturação para garantir mais impacto por hora ou dólar investido, é a nova norma de organizações jornalísticas eficazes – padrão que hoje chamamos de jornalismo pós-industrial”.

Ecossistema Pós-Industrial

Essa seção do dossiê apresenta as transformações ocorridas no ecossistema jornalístico e aponta a necessidade das organizações jornalísticas de se adaptarem ao novo panorama vigente.

O documento mostra que a participação de indivíduos, massas e máquinas vem mudando a configuração tradicional de publicação, produção e apuração das notícias e que o meio, no caso a internet, proporciona a quebra da hegemonia das organizações jornalísticas no controle desse processo. Como é o caso do Wikileaks e sua ampla divulgação nos meios convencionais.

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São elencados diversos exemplos em que o indivíduo, com maior acesso a meios de publicação em tempo real, dá conta de transmitir notícias de importância jornalística antes mesmo da grande impressa noticiá-las; grupos de pessoas podem colaborar, participar e dinfundir informações; e que a utilização de máquinas no processo de compilação e compreensão de dados e acontecimentos vem aprimorando as formas de noticiabilidade.

Por fim reafirma que as atividades básicas do jornalismo, como apurar, produzir e publicar, estão sendo modificadas por formas de participação de indivíduos, grupos e máquinas.

A notícia como produto de importação e exportação

O dossiê começa este tópico com uma pergunta: “O que troca de mãos entre os participantes do ecossistema?”. Há um enfoque na reprodução comercializada de conteúdo de outros meios (syndication) e no uso de material de agências de notícias. No novo ecossistema jornalístico, proporcionado pela internet, a ideia de todo mundo produzir do zero um artigo acabado simplesmente não é o normal. Há muitas formas de reaproveitamento de notícias, sendo algumas contratuais.

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Se utilizar de matérias como da Associated Press (AP), por exemplo, é comum entre empresas jornalísticas. Hoje, é imperativo que a instituição tenha a capacidade de estabelecer parcerias (formais e informais) possibilitadas pelo novo ecossistema. Agências noticiosas como a Reuters, por exemplo, ganharam, inclusive, uma extensão brasileira.

Recomendação: aprender a trabalhar com parceiros 
As recomendações existentes neste dossiê estão voltadas para as mudanças ocorridas a partir do surgimento da internet, que gerou um novo ecossistema jornalístico, no qual suas atividades básicas – apurar, produzir e distribuir notícias – estão sendo modificadas por novas formas de participação de indivíduos, grupos e máquinas.
Neste novo ecossistema, uma das recomendações é estabelecer parcerias com indivíduos e organizações. Ainda que não esteja explícito no dossiê que tipo de parceria seria o ideal, cita exemplos como a parceria do New York Times com a rádio WNYC (a SchoolBook) para melhorar a cobertura dos dois meios na área de educação. O dossiê explicita que a forma de competição ao qual os veículos de comunicação estavam acostumados, na qual cada um tem que cobrir o mesmo evento de forma ligeiramente diferente, já era um problema quando existia muito dinheiro neste meio. Mas que, agora, essa competição é nociva. Os meios devem, portanto, pensar em maneiras de estabelecer as tais parcerias.
Neste ponto da competitividade, o dossiê exemplifica a cobertura dos Jogos Olímpicos de 2008, onde muitos fotógrafos se acotovelavam para registrar uma cena muito parecida do nadador Michael Phelps. Ligeiras diferenças são percebidas nas fotografias deste instante e foi desperdiçado custo humano e financeiro para o registro de um mesmo momento e basicamente de um mesmo ângulo.

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Recomendação: descobrir como usar o trabalho sistematizado por outros

A segunda recomendação é um desdobramento da primeira. Recomenda-se utilizar o trabalho sistematizado por outros, já que hoje temos um enorme crescimento de dados estruturados e um também aumento de APIs, o que gera um aumento na colaboração sem a necessidade de solicitar ajuda ou permissão à instituição que abriga os dados. Neste sentido, buscar formas de usar e reconhecer o trabalho fornecido por estas instituições sem a necessidade de classificá-las necessariamente como “fonte” ou “fornecedor” ajudaria a ampliar o leque de colaborações.

Essa nova realidade é importante porque garante o acesso à baixo custo a um material de alta qualidade até então indisponível. No entanto, essas ferramentas alteram a organização que as utiliza porque não são ferramentas novas para fazer coisas à moda antiga e a as instituições enfrentam obstáculos para sua utilização. Os mais óbvios são a falta de capacitação técnica e visão para usá-los. Nas faculdades de jornalismo os alunos sabem mais sobre como produzir um vídeo do que sobre exploração básica de dados. Ainda que tenham surgido ferramentas que facilitem esse uso, jornalistas carecem de desenvoltura básica com números.
Em seguida vêm os obstáculos culturais. Para utilizar o trabalho sistematizado por outros, é necessário superar o que o dossiê chama de “Síndrome do não foi inventado aqui” e dar os devidos créditos às organizações que abrigam essas informações.
Além disso, as instituições jornalísticas devem, também, criar e melhorar a sua própria capacidade de disponibilizar seu trabalho para ser reutilizado por outras instituições. Essa recomendação recai na mesma questão anteriormente citada que é a competitividade do meio jornalístico. Mas o dossiê rebate: “Sempre haverá tensão entre a lógica competitiva e a cooperativa no ecossistema jornalístico. Na atual conjuntura, no entanto, o custo de não empreender um esforço conjunto subiu, o custo de colaborar sem muito ônus caiu consideravelmente e o valor de trabalhar sozinho despencou”.
Essa é uma forma de elaborar um trabalho de maior qualidade a um custo menor. Para isso, no entanto, a organização precisa vencer os obstáculos apresentados neste dossiê.

 Recomendação: descobrir como usar o trabalho sistematizado por outros

O dossiê sugere, então, algumas recomendações para otimizar o trabalho jornalístico dentro deste novo ecossistema.

Usar o trabalho sistematizado por outros aumenta o potencial na colaboração sem cooperação: quando um meio de comunicação aproveita dados ou interfaces disponíveis sem a necessidade de solicitar ajuda ou permissão à instituição que abriga os dados. Desta forma, há um acesso a baixo custo e alta qualidade. Para isso, no entanto, a organização precisa começar a tratar a redação como uma operação de importação e exportação, não como um chão de fábrica.

Recomendação: incluir links para o material-fonte

Para o dossiê, a possibilidade de inclusão de links no texto é o grande diferencial da internet para os demais meios de publicação. Na prática jornalística, a forma mais básica de link é para o material-fonte e é uma possibilidade do leitor saber mais a respeito do assunto tratado caso se interesse, sendo uma forma também de explorar o potencial infinito que a internet possui de acesso a informações.

Para o público, o link para o material de origem tem valor tão óbvio, e é tão fácil, que a organização que se recusa a fazê-lo está expressando pouco mais do que desprezo pela audiência e por normas éticas da comunicação pública.

Recomendação: não tentar aplicar peso da marca a produto menos nobre

Este tópico serve para recomendar o que não fazer, tratando-se de uma relação entre a reputação da empresa jornalística x custo de produção. É tentador, para publicações com boa reputação, achar um jeito de aplicar seu selo de alta qualidade a iniciativas novas, de baixo custo e alto volume.

Um recurso do gênero “últimas notícias de toda a internet” pode ser valioso, bem como pedir a gente nas Filipinas que redija o que é, basicamente, um texto padrão, a partir de certo conjunto de fatos. Ambas são estratégias úteis. Mas apresentar esse conteúdo como se fosse idêntico a reportagens apuradas, redigidas e verificadas com mais afinco cria riscos tanto a curto como a longos prazos – riscos que não compensam a efêmera oportunidade de arbitragem da união de uma boa marca com um conteúdo barato. Isso tudo põe em risco a reputação da empresa jornalística.

Recomendação: exigir que empresas e governos soltem dados inteligíveis

O dossiê recomenda que qualquer pessoa que lide com governos ou empresas deve exigir que dados de relevância pública sejam liberados de modo oportuno, interpretável e acessível. Os dados interpretáveis vêm em formato estruturado e utilizável, e não em PDF, por exemplo, que não permitem uma interação do leitor com o arquivo.

Além disso, os dados devem ser prontamente lançados em canais públicos na internet, e não mantidos em papel ou liberados somente mediante solicitação. 

Recomendação: reconhecer e premiar a colaboração

Organizações que oferecem subsídios e recompensas ajudam a balizar o modo como profissionais de jornalismo encaram a si mesmos e a seus pares.

O dossiê volta a citar o caso do “Dollars for Docs”, em que a ProPublica é uma organização que permite que seus dados sejam reutilizados por outras organizações, tornando-se um exemplo de colaboração a ser vislumbrado.

 

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produto laboratorial da Oficina de Jjornalismo Digital da Facom/UFBA

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