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Resenha sobre o Dossiê “Jornalismo Pós-Industrial” (Universidade Columbia) Parte IV – Movimentos tectônicos

Por: Luana Velloso, Miriane Oliveira, Paula Morais, Renato Alban, Rita Martins e Thais Borges

Em “Os movimentos tectônicos”, os pesquisadores da Universidade de Columbia fazem as últimas deliberações acerca das pesquisas que produziram o dossiê “Jornalismo Pós-Industrial: Adaptação aos novos tempos”. Para discorrer sobre velhas e novas organizações jornalísticas, bem como para prever possíveis conjunturas do futuro, os autores apresentam um relatório elaborado em 1992, pelo então secretário de redação do jornal americano Washington Post, Robert Kaiser.

O documento foi redigido após o executivo ter participado de uma conferência no Japão, onde conheceu elementos tecnológicos que viriam a se transformar na atual realidade da multimídia e da distribuição dos produtos dos meios de comunicação. Em seus escritos, Kaiser discorreu sobre a importância de não ser “devorado” pelo mar eletrônico, bem como propôs a criação de dois projetos – o primeiro, de classificados eletrônicos e o segundo, do que viria a ser o primeiro jornal eletrônico do mundo.

No entanto, o executivo chegou à conclusão de que os projetos poderiam esperar até que fosse garantida uma forma de ganhar mais dinheiro com o lançamento dos novos produtos. O erro de Kaiser foi, portanto, acreditar que “a nova tecnologia iria aumentar, em vez de derrubar, a receita publicitária. E que iria dar mais controle ao jornal, não ao leitor”.

Através do exemplo do Washington Post, os autores pontuam que, no começo da década de 1990, era difícil perceber qual era questão mais importante diante do futuro da multimídia. Mais do que entender o novo cenário, as organizações jornalísticas precisavam adaptar-se à nova configuração. Igualmente difícil também era perceber que a revolução digital não favoreceria o critério editorial, mas a “virtude de um usuário com mais poder”. Soma-se a isso a necessidade de entender que a matemática dos novos meios não envolve a geração de receita, mas a redução de custo.

A partir disso, e da reflexão a respeito da atual situação da produção de notícias, os autores fazem uma previsão de como será o meio jornalístico em 2020. Além disso, o dossiê tenta identificar quais as forças que estarão atuando no panorama futuro que, porventura, já possam ser identificadas.

Para os pesquisadores, em 2020 ainda deve existir uma “continuidade superficial com o panorama jornalístico do século 20”. Veículos de comunicação conhecidos continuarão existindo, mas acompanhados de uma reconfiguração de quase todo o aspecto do meio em que atuam.

Próximos anos

A metáfora sobre as placas tectônicas utilizada por George Trow, em 1960, para falar sobre o desaparecimento do núcleo de cultura cívica pode ser compreendida também para o atual cenário midiático. Instituições jornalísticas como a CNN ou a CBS não serão mais vistas como o poder centralizador do jornalismo.

O motivo será a nova forma de consumo da notícias e a sua especificidade. Muitas pessoas consumirão notícias em setores específicos. Ainda que sejam publicadas como “interesse geral”, os consumidores desmembraram e e distribuir em redes aquilo que será do seu nicho de interesse. As redações jornalísticas se tornaram menores, no entanto, com maior número de atores trabalhando nelas. Aparecerão redações sem fins lucrativos e a notícia ganhará mais alcance. No entanto, instituições jornalísticas terão a necessidade do autopoliciamento para que as notícias não sejam dissolvidas a meros interesses.

A impressa perderá o papel de opinião pública, uma vez que a variedade de notícias em um grande número de veículos continuará em ascensão. O “público”, como dito no texto, visto como uma “como grande massa interligada de cidadãos consumidores de notícias”, será cada vez mais dividido por interesses.

Novas técnicas surgiram na produção de notícias: “análise algorítmica de dados, representação visual de dados, contribuição do cidadão comum, incorporação da reação das massas, produção automatizada de textos a partir de dados. Haverá mais generalistas trabalhando em temas de nicho”, são algumas delas. A troca de informações entre redações ficará cada vez menor, uma vez que as redações se tornaram especializadas, com ideias distintas entre si sobre a forma de trabalho.

O que os jornalistas devem fazer

No novo panorama do meio jornalístico os autores falam de dois conjuntos de relações: o trabalho dos profissionais no apoio as instituições ou trabalho dessas no apoio a jornalistas. Embora certifiquem que há verdades nessas duas óticas, explicam as razões pela escolha da segunda opção. A primeira justificativa é que o trabalho de jornalistas tem preferência sobre o trabalho das instituições, o que eles chamam precedência lógica e temporal; a segunda é que “o ato de testemunhar, descobrir e entender o que é importante e transmitir a informação a públicos distintos é papel sagrado”.

Segundo os autores a preocupação com sobrevivência das instituições só assume papel de urgência pública por estas dar apoio aos jornalistas e nisso a sobrevivência dessas é mais importante que o exercício desse papel. Os autores explicam que embora a ideia de sobrevivência das instituições tenha sido maculado pela ideia de que “você é a sua marca”, estamos em uma era onde “iniciativas individuais ou de pequenos grupos são ideias para a descoberta de novas fontes de valor”, porém ressaltam que essa nova inovação tenha que se converter em algo repetível.

No novo cenário da atividade jornalística, em que o jornalismo vai para muitos lugares: “de um conjunto de papeis cuja descrição e cujos padrões diários era uniformes” para outros tantos onde especialistas que desenvolvem determinada ferramenta de pesquisa segue crescendo. Por exemplo, Nater Silver, estatístico americano que virou referência em 2008 por fazer previsões sobre a eleição presidencial americana naquele ano, acertando as especulações; Silver também escrevia para o blog Daily Kos.

Nesse novo contexto “já prevendo o crescimento de modos e tempos e possíveis do jornalismo” segundo os autores, cabe a cada profissional conhecer seus pontos fortes e deficiências; saber quais são suas áreas de especialização, seja no conteúdo (politica, clima) como perceber suas qualidades quanto a entrevistar, apurar. O entendimento e de que cada profissional precisa refletir sobre sua atividade, e que é preciso dominar e saber quando usar as novas ferramentas de pesquisas: seja uma rede social ou lista de contatos. Para os jornalistas especialização é o caminho.

Por outro lado os autores argumentam que cabe à faculdade direcionar o aluno para o tipo de especialização que deseja adquirir e qual o caminho a percorrer. Essa missão, segundo os autores, não deve ser para preparar o aluno para instituições específicas (o que eles sinalizam como nociva a divisão entre imprensa escrita e falada), e sim, em prepará-lo para “formas especificas de investigação, independente de como e onde isso será feito”. Os autores diagnosticam que a sorte do jornalismo está nas mãos de cada profissional, e cada um deve assumir o que eles chamam de parte mais difícil, que é “decidir o que significa jornalismo em um mundo no qual informação é o que não falta”.

O que velhas organizações jornalísticas devem fazer no novo contexto?

Na parte conclusiva do dossiê, os autores retomam algumas recomendações para novas e velhas organizações jornalísticas. Agora, de forma mais resumida, os autores chamam a atenção para o risco que instituições mais tradicionais correm ao acreditar que o maior efeito trazido pelas novas mudanças é a perda incessante de receita, quando, na verdade, o principal efeito trazido pelas novas mudanças é a reestruturação do próprio fazer jornalístico, com consequências para cada componente do ecossistema jornalístico.

Diante disso, a recomendação é adaptar-se à internet e desenvolver a capacidade de fazer mais com menos, já que a perda de receita é uma realidade para quase todas – se não para todas – as organizações jornalísticas tradicionais. Os autores mostram que é possível fazer mais com menos trazendo dois sites como exemplo. O primeiro é o Homicide Watch, um site que utiliza reportagens, documentos de fonte primária e redes sociais para mapear o número de homicídios no Distrito de Columbia:

“Homicide Watch D.C. is part of a growing network of Homicide Watch sites across the United States (…)We use original reporting, primary source documents and social networking to build one of the nation’s most comprehensive public resources on violent crime”.

O segundo site é o Narrative Science, uma empresa de tecnologia focada na criação automática de conteúdo narrativo, a partir de um software desenvolvido por estudantes de ciência da computação e estudantes de jornalismo orientados pelos professores Kris Hammond e Larry Birnbaum, na Universidade Northwestern. Essa tecnologia permite a produção de histórias, relatórios de negócios, tweets e outros tipos de conteúdo de texto a partir da análise de dados extraídos de fontes de dados de vendas, marketing ou pesquisa de mercado.

“Narrative Science began life as a Northwestern University research project called StatsMonkey. StatsMonkey was a piece of software that automatically generated baseball game recaps. The software was developed by Northwestern computer science students and journalism students who were advised by Kris Hammond and Larry Birnbaum, both professors at Northwestern and co-directors of the Intelligent Information Laboratory. The “InfoLab” already had a strong focus on the automatic generation of content and StatsMonkey was a natural outgrowth of that focus.”

Após exemplificar sites especializados em determinados temas, o dossiê apresenta o que chama de recomendação geral para as “instituições da velha guarda”, sinalizando a especialização como saída:

Decida que esfera da sociedade sua organização quer cobrir, e como. Abandone qualquer atividade que não contribua para essa meta. Entre em parcerias ou colaboração com organizações que persigam a mesma meta, mas tenham custo menor do que o seu. Nas demais atividades, busque ou excelência, ou baixo custo (se possível, ambos).

E diante da queda da publicidade em veículos tradicionais, os autores do dossiê apontam para a necessidade de considerar novas receitas por parte das velhas organizações, como realização de eventos, apoio financeiro de outras instituições para cobertura de certos setores e cobrança de assinaturas digitais para os leitores mais fiéis. Os autores não explicam de que maneira organizações podem angariar receitas a partir da realização de eventos, nem quais tipos de eventos poderão ser realizados e como deverão ser realizados.

Outra sugestão de fonte de receita, apontada pelo dossiê, que deve ser questionada, é o apoio financeiro de outras instituições para cobrir determinados setores. Quais setores poderiam aceitar esse apoio sem sofrer interferências diretas de interesses da organização apoiadora? Até que ponto esse apoio financeiro não comprometeria a imparcialidade das notícias? Os interesses da organização apoiadora teriam prioridade em face do interesse público? São questões não contempladas no dossiê, embora tenham grande relevância no próprio fazer jornalístico e podem influenciar diretamente no modelo organizacional dos veículos de comunicação.

Além de recomendar a especialização, o dossiê orienta as organizações a automatizar a produção de textos que exija tempo, mas tem baixo valor. Outra alternativa é delegar essa atividade a parceiros, usuários, ou, ainda, eliminá-la. Organizações mais tradicionais também deverão considerar dados e relacionamentos como novos recursos, e enxergar usuários como cooperadores na construção e distribuição de notícias.

O que novas organizações jornalísticas devem fazer?

A principal dica que os pesquisadores da Universidade de Columbia dirigem às novas organizações é o mesmo conselho que deram para as velhas: “Sobrevivam”. “Novas organizações jornalísticas terão de fazer o mesmíssimo que organizações da velha guarda em termos de buscar um equilíbrio entre rapidez e profundidade, agregação e geração própria de conteúdo, criação solo e parceria”, aconselha o dossiê. As instituições emergentes, segundo eles, têm vantagem sobre as demais não por saberem mais do que as organizações que já estão no mercado, mas por saberem menos. As novas empresas não carregam velhas premissas, já obsoletas para a nova realidade.

Apesar de largarem na frente na competição pelos novos espaços no campo jornalístico, em certa medida, as instituições recém-chegadas no mercado precisam olhar para trás e aprenderem a ser estáveis e previsíveis. “Para sobreviver, novos projetos jornalísticos terão de adotar parte da rotinização do trabalho e da estabilização de processos das instituições mais antigas que tentam desbancar”, alerta o relatório dos pesquisadores. Devem tentar novas fontes de renda, mas sem esquecer que a publicidade permanece como o pilar principal da saúde financeira do Jornalismo.

Segundo os pesquisadores, há duas crises no campo: a redução das funções tradicionais das instituições e a necessidade da estabilidade institucional. As novas organizações devem ficar atentas à segunda crise. “O grosso da discussão envolvendo o modelo voltado ao lucro versus o modelo sem fins lucrativos é inútil; qualquer saída que garanta mais receita do que despesas é uma boa saída”. As discussões sobre o futuro jornalístico por vezes ignoram a questão financeira, citando inovações e iniciativas interessantes sem perceber se elas são – ou não – sustentáveis.

Enquanto todos parecem acreditar que as velhas organizações naturalmente perderão espaço para as novas, o dossiê apresenta um segundo caminho possível: as antigas instituições perderiam força, mas se manteriam no mercado impedindo a emergência das novas por terem o peso de grandes organizações burocráticas. Uma pesquisa do Laboratório Nieman sobre financiamento de novas organizações jornalísticas na Europa e nos EUA mostra que o medo dos pesquisadores não se confirma no atual cenário e que as novatas estão conseguindo encontrar nichos de mercado para se sustentarem.

“The media landscape is changing. The stranglehold of mass media over production and dissemination is loosening, and media entrepreneurs are increasingly taking up their place in a fragmented media ecology. New global actors have emerged as the production, consumption and distribution patterns transform (Wunsh-Wincent 2010; Newman 2011). And this new era of entrepreneurialism is not just about Silicon Valley: media entrepreneurs around the world are harnessing new tools, ideas and platforms to flex their muscles and redefine what it means to do journalism” (Chasing Sustainability on the Net. p. 7)

De acordo com o estudo do laboratório, publicado em janeiro deste ano e realizado com 69 novas organizações em nove países, as instituições locais e orientadas para nichos têm mais chances de sucesso. Apesar de tentarem diversificar as fontes de renda, estas organizações ainda sobrevivem de anúncios e são formadas por equipes pequenas em que os jornalistas também cuidam dos negócios. Na conclusão da pesquisa, os pesquisadores apostam que a chave para as novatas sobreviverem é a diversificação de modelos.

“Traditional business models and methods have become outdated, but it is not clear what will replace them. Advertising will remain the single most important source of revenue for the news industry… Ultimately, we believe, news organizations will rely on a combination of revenue sources” (p. 124)

O fim da solidariedade

De acordo com o dossiê, a maior mudança, nos próximos sete anos, será o enfraquecimento daquilo que se considera jornalismo e consequentemente, instituição jornalística. Em tempos de redes sociais como produtoras e disseminadoras de informações, o dossiê questiona se o Facebook pode ser considerado uma instituição jornalística, e até o momento não há resposta plausível para essa pergunta, o que na linguagem dos programadores é chamado de “Mu”.

Esse enfraquecimento vai gerar o fim da estabilidade que caracteriza o jornalismo e vai gerar o fim dos critérios que consideram, por exemplo, o jornal St. Louis Post-Dispatch que publica tirinhas e colunas de conselhos sentimentais como uma organização jornalística, mas não considera o Little Green Footballs, embora tenha produzido um bom trabalho ao analisar documentos forjados sobre a passagem de George W. Bush pela Guarda Nacional norte-americana.

Haverá cada vez mais pessoas que se dediquem parcialmente à atividade jornalística, apesar de continuar a existir os que se dedicam integralmente. Esse é outro grande desafio previsto pelo dossiê, que se dará também em relação à sobreposição e colaboração dos indivíduos remunerados e voluntários.

A grande mudança não acontecerá por parte do jornalista e sim por parte do público que, tendo acesso a diversos meios e fontes, pode buscar novas formas de partilhar, comentar e até produzir notícias – como já fazem.

O dossiê aponta como aspecto principal que instituições e jornalistas reconheçam a revolução que está acontecendo para que possam se adaptar a esse novo panorama. Atenta também para o uso de novas estratégias, algumas que poderiam parecer insanas anos atrás e que hoje podem surtir efeitos, assim como estratégias convencionais podem não funcionar mais. O dossiê faz uma análise em relação ao futuro:

“O futuro próximo trará ainda mais reviravoltas, de modo que até estratégias atualíssimas, com poucos anos de vida (feeds RSS, blogs de jornalistas) podem se converter em recursos triviais, enquanto outras (a capacidade de caçar mistérios em vez de segredos, de levar à atenção do público vozes novas, que surpreendam) podem adquirir nova importância.”

A maior qualidade que se poderá ter nesse tempo é a capacidade de adaptação ao que há de novo, mesmo que não se entenda completamente a novidade. E lembrar sempre que a importância disso tudo não está na empresa e sim no jornalismo, que é um bem público essencial.

Métodos usados

A pesquisa se baseou em diversas entrevistas quantitativas feitas em diversas circunstâncias: conversas a sós, em locais de trabalho, por e-mail ou telefone e nas instalações da Columbia University Graduate School of Journalism.

O dossiê pretende incentivar a produção de outros estudos feitos a partir de teorias acadêmicas com os últimos desdobramentos no mundo do jornalismo e da mídia digital. As transformações no jornalismo é que vão validar ou não as conclusões e provocações feitas por esse dossiê.

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