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Resenha sobre o Dossiê “Jornalismo Pós-Industrial” (Universidade Columbia) – Introdução

Por Cláudia Guimarães, Fabiana da Guia, Laís Rocha, Marina Baruch, Val Benvindo e Victor Pinto

O dossiê “Jornalismo Pós-Industrial – Adaptação aos novos tempos“, produzido pelo Tow Center for Digital Journalism da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia (2012, EUA), que foi traduzido no Brasil pela  Revista de Jornalismo ESPM, e reproduzido no Observatório da Imprensa, trata de questões relacionadas ao que os seus autores – C.W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky – classificam como jornalismo pós-industrial. Atualmente, já não existe mais a indústria jornalística tal como era e que se mantinha em pé por condições que também já não existem mais. Na última década, as pessoas passaram a ter mais liberdade para se comunicar e a imprensa não é a única que consegue tornar uma informação pública. Segundo o dossiê, essas mudanças causaram a queda na qualidade do jornalismo americano, e é preciso pensar em novas possibilidades e novas formas de organização para que a situação possa melhorar. No entanto, ainda é prevista uma piora no jornalismo antes que a qualidade volte a subir.

Para que o quadro atual melhore, são sugeridas saídas como produção de um jornalismo de utilidade pública, com a utilização de técnicas e ferramentas inovadoras. É preciso “adaptação” ao mundo em que o público não é mais apenas leitor nem telespectador, é também capaz de interagir. No entanto, as novas técnicas sozinhas não serão suficientes. É preciso mudar também a organização dos veículos de comunicação. Sendo assim, o dossiê parte de cinco grandes convicções: o jornalismo é essencial; o bom jornalismo sempre foi subsidiado; a internet acaba com o subsídio da publicidade; a reestruturação se faz, portanto, obrigatória; e há muitas oportunidades de fazer um bom trabalho de novas maneiras.

A primeira convicção mostra que o jornalismo é essencial porque mostra ao público injustiças sociais, cobra promessas políticas, informa os cidadãos e ajuda na formação da opinião pública. No entanto, nem todo jornalismo é essencial. O dossiê foca o trabalho apenas no hard news, que é o conjunto de notícias sérias e distingue o jornalismo de outras atividades comerciais. As notícias sérias são as que têm verdadeira importância, pois cobrem fatos que são capazes de mudar a sociedade. Na situação atual de crise, é possível afirmar que não é possível preservar os antigos formatos jornalísticos que foram praticados nos últimos 50 anos e que é preciso buscar então uma saída para evitar que a prática jornalística leve à pura defesa de interesses pessoais. Hoje, os jornalistas não podem apenas narrar os fatos. Esses profissionais precisam relatar os fatos que alguém não quer ver divulgados e não podem se limitar a tornar a informação pública. O novo jornalista deve contextualizar o que fala, de modo que possa repercutir no público. O papel do jornalista precisa mudar e se sobrepor ao papel do público, que hoje já consegue narrar os fatos publicamente.

Sobre a economia na atividade jornalística, o que se pode dizer é que a mesma polêmica dos primórdios se mantém: como sustentar a produção de notícias? O mercado do jornalismo sempre foi subsidiado, mas nunca houve a capacidade de absorção do volume de informação produzida. Quanto à publicidade, é demonstrado no dossiê que não há relação nenhuma entre ela e o jornalismo e destacadas as ligações entre os anunciantes e os meios comunicação como uma forma de relação comercial. De acordo com o texto, atualmente o maior problema enfrentado quanto ao jornalismo digital é o término do subsídio da publicidade e com isso a diminuição da qualidade e da produção das noticias.

O dossiê defende, ainda, uma reestruturação obrigatória do jornalismo, nos modelos e processos organizacionais. Há também a necessidade da queda nos custos e maior produção das notícias. O quinto tópico mostra que a receita para garantir essa existência acontece devido à queda das receitas dos veículos/empresas, mesmo com a crescente melhoria da economia. Os autores acreditam que mesmo neste processo de queda, os empreendimentos podem não suportar um novo período de recessão. A reestruturação será obrigatória para garantir a continuidade da prestação de serviços. Ambas as teses do dossiê são tidas como garantias de uma sobrevida do jornalismo tradicional, somado às novas tecnologias e técnicas de coberturas jornalísticas.

A última parte do dossiê “Jornalismo Pós-Industrial” traz um esclarecimento em relação aos conceitos de público e audiência. Inicialmente, a palavra público significava “o termo final, o termo sem o qual nada conta; por ele, jornalistas justificam seus atos, defendem o ofício, sustentam sua tese em termos do direito do público à informação, de seu papel como representantes do público, de sua capacidade de falar ao público e pelo público”, com o desenvolvimento da noção de esfera pública e a hipótese de que existem diferente públicos sobrepostos, a palavra para a ser designada como “o grupo de consumidores ou cidadãos que tem interesse em forças que exercem influência sobre sua vida e que busca alguém para monitorar tais forças e mantê-lo informado, para que possa agir com base nessa informação”. Por conseguinte, o conceito de audiência é apresentado como “a massa de indivíduos que recebia conteúdo produzido e distribuído por meios. Filmes, música, jornais, livros – tudo isso tinha audiências claras”.

O dossiê apresenta ainda uma ressalva em relação à utilização do The New York Times como referência durante todo o documento, apontando que o veículo não pode ser comparado aos demais meios de comunicação, por ter uma categoria “própria”. O documento foi redigido tendo em mente diversos públicos diferentes e foi dividido entre os subtemas Jornalistas, Instituições e Ecossistema, além da conclusão.

Resenha sobre o Dossiê “Jornalismo Pós-Industrial” (Universidade Columbia) Parte I – Os Jornalistas

Por: Fernanda Sobral, Gabriela Milton, Joana Oliveira, Karen dos Santos, Thuanne Silva e Wesley Miranda

Ao tratar sobre a transformação no papel do jornalista nos “novos tempos”, os autores C.W. Aderson, Emily Bell e Clay Shirky trazem diversos exemplos de jornalismo especializado sendo feito por não-jornalistas – como o SCOTUSblog, blog especializado na cobertura da Suprema Corte Norte-Americna, o Naked Capitalism e o NY Velocity, blog especializado em ciclismo que cobriu o “caso Armstrong” melhor que a imprensa esportiva tradicional – afirmando que o jornalismo pode e tende a ser cada vez mais exercido fora de uma redação tradicional e por gente livre das pressões comerciais e protocolares.

O dossiê mostra que o “antigo território do jornalistas está sendo invadido”, mas ressalta que isso não implica no desaparecimento dos deveres essenciais da tarefa jornalística e levanta duas questões: o que os novos atores podem fazer melhor que jornalistas no velho modelo? E que papel o jornalista pode exercer melhor do que ninguém?

Um dos fatores de grande influência no aparecimento desse novo ecossistema jornalístico é a expansão das mídias sociais e a capacidade que cidadãos conectados – jornalistas ou não – têm de testemunhar e, quase que instantaneamente, publicar informações sobre um acontecimento em primeira mão. Ou, como no caso do WikiLeaks, vazar informações litigiosas e relevantes para a população em apenas um click. Para os pesquisadores do Tow Center for Digital Journalism da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, é a partir desse cenário que o “novo jornalista” deve trabalhar, coletando informações e dando ênfase na verificação e interpretação das informações, sejam em textos, áudios, fotos ou outros formatos, que são produzidas pelo público.

Outro grande fator de mudança é o avanço das máquinas e dos sistemas de dados. Como diz é dito no dossiê, “se há algo que a máquina faz melhor do que o homem é garimpar com rapidez grandes volumes de dados”. A ideia de sites como Narrative Science, por exemplo, é automatizar a produção de textos padronizados, como resultados financeiros e resultados de competições esportivas. Dessa forma, ao invés de perder tempo produzindo textos básicos, o jornalista fica livre para exercer tarefas mais complexas ou que exijam interpretação.

O jornalismo está passando por este momento complicado, de decadência do modelo antigo e transição lenta para o novo modelo, porque a maioria dos jornalistas ainda não sabe tirar proveito de todas as possibilidades que esse novo ecossistema de produção de informações traz. Existem novas fontes de dados digitais e novas estratégias de coleta de informações que podem, e devem, ser utilizadas em prol de melhores coberturas, apurações mais precisas e produtos de qualidade, feitos com rapidez.

O papel dos jornalistas

Para os pesquisadores, o desenvolvimento do jornalismo é comparável à ascensão da máquina a vapor, que possibilitou a especialização do artesanato, encerrando a produção humana no trabalho braçal da indústria têxtil. O mesmo aconteceu com o jornalismo após a ascensão da imprensa. Seu papel como mero produtor braçal foi superado pelo uso do intelecto. A industrialização da distribuição de material impresso recolocou o jornalista como canalizador de conteúdo, aquele que constrói a notícia e é capaz de investigar e interpretar como nenhum equipamento é capaz de fazer.

E em que situações o valor humano do profissional se sobrepõe? De acordo com o dossiê, em quatro aspectos: o primeiro deles consiste na prestação de contas à sociedade. Para Anderson, Bell e Shirky “se o jornalismo tem um impacto, e se parte de sua função é obrigar outras instituições a prestar contas de seus atos, o próprio jornalismo deve ser capaz de justificar os seus”. Por premissas como essa é possível questionar o limite da liberdade de expressão do jornalismo e o caráter ético do uso de câmeras ocultas e grampos eletrônicos ao ferir o direito à privacidade de cidadãos em nome da notícia. O segundo aspecto está associado à eficiência do jornalista em relação à máquina, não em rapidez, mas na capacidade de apuração e disseminação de informações. Para o teórico da Comunicação e professor da Universidade de Columbia, James Carey, tais fatores dão dramaticidade necessária a qualquer notícia.

O dossiê destaca ainda a originalidade do jornalista ao formar movimentos e inovar em práticas, ações em que o “humano” supera qualquer elemento, por ser capaz de usar sua bagagem cultural para promover mudanças sociais. O último aspecto é referente ao carisma do jornalista. Com a frase “gente segue gente”, os autores reafirmam o papel humano do profissional ao utilizar seu carisma para conquistar o público no ecossistema da informação. Na interface do jornalismo digital não há mais espaço para a antiga fórmula: apuração, redação e edição. A adaptação a uma nova realidade é o principal desafio do jornalista que precisa reconhecer e narrar fatos, no formato cabível, a uma audiência mais diversificada e exigente.

O que um jornalista precisa saber?

Após uma proposta de emprego, o programador Chris Amico, juntamente com a sua esposa, a jornalista Laura deixou a California e se mudou para a capital Washington DC. Sem perspectivas de emprego na capital, Laura, com a ajuda do marido, resolveu montar um site que catalogava todos os homicídios que aconteciam na cidade e ajudava os familiares a encontrarem as vítimas, o Homicide Watch DC.

O site não apenas catalogava esses homicídios como também fazia a cobertura de forma detalhada, informando o “objeto”, o local do crime, a idade e a raça dos envolvidos, podendo, assim, realizar um retrato muito detalhado do homicídio. Ao ser perguntado de onde veio a ideia de criar esse site, Chris responde que o único intuito do casal era fazer deliberadamente o que não era feito ainda. Com isso, o site já conseguiu dar furos sobre assassinatos antes mesmo de os jornais noticiarem as mortes.

Para que o sucesso do site tivesse se consolidado, foi necessária toda uma bagagem técnica que Chris possuía como programador e Laura como jornalista policial, estas são chamadas de “hard skills”. Além disso, foi necessário o domínio das habilidades menos tangíveis e mais sensoriais, as chamadas “soft skills”.

Soft Skills

Mentalidade

O que os autores sugerem primeiramente é uma mudança de mentalidade que ocasionaria uma mudança no campo jornalístico e na própria instituição. Eles afirmam ainda que, quando essa mudança é feita, o profissional se torna menos dependente da própria instituição.

No caso supracitado, Laura poderia ter procurado um emprego em algum veículo de comunicação mas, ao invés disso, resolveu fazer algo que ninguém estava fazendo no momento. Segundo o chefe de redação do braço interativo da Associated Press, Shazna Nessa, esse espírito de mudança está mais localizado nos jovens jornalistas.

O autor cita alguns jornalistas com esse tipo de mentalidade que já estão inseridos em diversos veículos de comunicação: John Paton, da Digital First Media; Leela Kretser, da DNAinfo; Lissa Harris, da Watershed Post; Burt Herman, da Storify; e Pete Cashmore, da Mashable;

Redes

A segunda soft skill que eles citam são as redes. Todo jornalista tem ou terá uma rede: de fontes, de contatos, de gente com uma bagagem profissional parecida, de uma comunidade que o segue e o ajuda. Segundo o autor, a depender da qualidade, a apuração das pautas fica total ou parcialmente delegada à rede.

Para que uma rede de qualidade seja eficaz, ele elenca alguns pontos que são necessários serem levados em conta: tato, imposição de limites bem concretos, tempo, reflexão, processo e critério.

A rede também pode estar ligada aos leitores que você conquista durante a sua carreira jornalística, seja pela forma de escrever ou pelos assuntos que você escreve. Se formos exemplificar com um jornalista local, podemos falar de Malu Fontes, que antes era colunista para o jornal A Tarde e depois se mudou para o jornal Correio*. A mudança não ocasionou uma diminuição da quantidade de leitores das suas colunas porque ela soube manter a rede atualizada e o seu mailing pessoal também.

Persona

A última soft skill ao qual os autores se referem é a persona que, segundo eles, compreende desde a habilidade narrativa, até a credibilidade e a presença do jornalista. A responsabilização também é encarada como uma característica da persona do profissional, por isso é muito importante ter critério sobre o que é publicado porque hoje em dia as notícias são muito compartilhadas, discutidas e disseminadas, tudo isso de forma instantânea.

É comum essa soft skill se confundir com valores, porque está muito relacionada com a integridade da persona pública que, uma vez manchada, é difícil ser recuperada. As principais maneiras de manchar essa persona é por meio de plágios, desonestidades e intenções ocultas, mas erros factuais, materiais requentados e falta de civilidade podem abalar uma reputação de forma rápida e irreparável.

Hard skills

Os jornalistas, além das soft skills, precisam ser dotados de hard skills, que são caracterizadas como a bagagem concreta.  Atualmente, o profissional deve ter conhecimento especializado e profundo em determinada área, além do ofício jornalístico em si. Não há espaço para o “típico generalista” devido à maior disponibilidade de informações provenientes de especialistas. Segundo o dossiê, a cobertura jornalística especializada tende a vir de profissionais para os quais o jornalismo é apenas uma atividade a mais. Quando tratamos de especialização pode ser um conhecimento geográfico, linguístico ou em determinada área de estudo. O valor da especialização pode estar em técnicas ou habilidades de comunicação e apresentação. Os profissionais destacados (como jornalistas e fotógrafos, especialistas em áudio ou vídeo, editores de mídias sociais) criarão público para seu trabalho através da capacidade de identificar um mercado e de se comunicar com ele.

Além dessa característica, o dossiê aponta a necessidade de aprimoramento no traquejo para uso de dados. Isso significa que não basta saber como e onde encontrar os dados disponibilizados por indivíduos, empresas e governos, mas também retirar o que eles oferecem, saber como compor narrativas e tirar conclusões que façam sentido. A contextualização e correta interpretação das informações obtidas por base de dados é fundamental na apuração e produção de um material jornalístico diferenciado. Houve um crescimento do volume de dados disponíveis sobre importantes atores e a capacidade de esmiuçá-los é imprescindível para o jornalista. Veículos como o Zero Hora, que montou um banco de dados sobre as assembleias no país e o Estadão, que possui uma seção onde destaca com infográficos sobre o PIB do país, são exemplos de como os dados podem diferenciar o conteúdo produzido pelas empresas jornalísticas.

Compreender como o conteúdo jornalístico é recebido pelos leitores, saber o que é mais ou menos lido e por quem também é de suma importância para a profissão. O jornalista deve ter acesso às ferramentas de monitoramento do conteúdo publicado, porém, segundo a publicação, os veículos americanos de comunicação estudados não emprega essas ferramentas, como o Google Analytics, por exemplo. Saber como o público consome as informações é crucial para identificar se o que o jornalista escreve, fotografa ou filma, chega a quem deveria chegar. No contexto atual, as redes sociais aproximam os leitores da notícia através dos links compartilhados. Com a popularidade das redes sociais, essa forma de propagação se torna mais eficiente do que os agregadores de notícias.

Ainda sobre as hard skills, o dossiê aponta a necessidade de transposição das barreiras de linguagem impostas ao jornalismo. São elas as estatísticas e a capacidade de interpretar dados e a competência técnica. O profissional da notícia deve entender, pelo menos em nível elementar, o que é código, qual sua função e se comunicar com os profissionais que mexem com eles.  Entretanto, para isso, são necessários estudo e experiência, elementos que nem todo jornalista tem ou é obrigado a ter. Portanto, exigir que o jornalista saiba de programação é complicado diante das inúmeras outras características prioritárias que ele deve dotar.

Por fim, o documento reconhece que a base do ofício jornalístico continua sendo escrever, filmar, editar, gravar, entrevistar, diagramar e produzir. Esses atributos não foram citados anteriormente por serem elementares para a identificação e relato de boas histórias. O importante agora é entender como cada uma dessas competências está sendo afetada pela tecnologia e pelas mudanças de comportamento trazidas por ela. Por isso é necessário criar narrativas com novos recursos de agregação.

Gestão de Projetos

Os autores passam a tratar de um modelo supostamente mais eficaz de jornalismo, baseado na construção de um processo já existente, onde o jornalista deixa de dominar apenas os assuntos que anteriormente cobria, o que torna a ideia editorial não mais fundamental. Steve Buttry, chefe do programa de capacitação da Digital First Media, chama isso de capacidade de gestão de projetos: capacidade de “estar a par de todos os aspectos do processo e de saber juntar isso tudo para produzir algo que funcione”. A matéria agora é um fluxo de atividades, onde o jornalista deve dominar o planejamento da evolução da cobertura, imaginar qual será o resultado do que está sendo escrito, além de saber os objetivos ou pressupor o impacto de um conteúdo jornalístico.

Ganha destaque o tema central do dossiê: o alerta para o modo como os jornalistas deverão cultivar sua capacidade de colaboração para poder lidar com a considerável e crescente tarefa de narrar acontecimentos, assumindo também um comportamento multidisciplinar. Os autores enfatizam que toda essa mudança de comportamento só será possível de forma plena quando o jornalista obtiver liberdade para refletir sobre os processos criativo e técnico das notícias e aprimorá-los.

A síndrome do hamster e Flat Earth News

Por conta das mudanças trazidas pelas forças tecnológicas e econômicas, que geraram corte de recursos e redução no quadro de funcionários, nos Estados Unidos (ambiente base deste dossiê) já não existe um plano de carreira comum, um conjunto de ferramentas e modelos de produção ou uma categoria de trabalhadores estável e previsível. O dossiê chega a fazer comparação entre o processo jornalístico industrial e o processo de produção de uma montadora de carros, a General Motors, traduzindo a comparação para “atividade que exigia um maquinário industrial e produzia um produto estático” e deixar de lado o processo criativo e sensível deste jornalismo. O dossiê classifica o jornalismo pós-industrial como uma atividade “na qual a liberdade e os recursos individuais crescem e respondem a necessidades de usuários”.

Os autores acreditam que o jornalismo do futuro não seguirá o modelo de reciclar comunicados de imprensa e produzir mais com menos sem nenhuma mudança fundamental em processos (são consideradas inimigas do bom jornalismo, mas que acabam sendo utilizadas para suprir a relação urgência de conteúdo versus equipe reduzida). Esse processo é o que Dean Starkman chama de giro incessante da “roda do hamster” ou “correr atrás do público transitório com a rápida publicação de matérias chamativas”, teoria também desbravada no livro Flat Earth News.

O dossiê cita Andy Carvin, da emissora norte-americana de rádio NPR, como “melhor exemplo de jornalista que soube explorar oportunidades abertas pelas tecnologias fora dos processos da redação”. Durante a primavera árabe, Carvin tornou público os bastidores de todo o processo de criação e intervenção interna de uma matéria em tempo real no Twitter.

Os autores destacam que esse tipo de quebra nos velhos processos do jornalismo só é possível quando o jornalista adquire liberdade suficiente nas respectivas instituições para desenvolver seu trabalho. Muitos não conseguem e tentam fundar as suas próprias plataformas, como Burt Herman, que deixou a Associated Press para criar o Storify. O caminho contrário também é possível, como o caso de Ezra Klein, comentarista de economia e política que criou o primeiro blog aos 19 anos e levou sua plataforma (a Ezra Klein) primeiro para o American Prospect e, depois, para o Washington Post, e Nate Silver, que criou o blog de política FiveThirtyEight.com, incorporado ao New York Times em 2010.

O dossiê aponta que o jornalismo atual encontra-se em processo de evolução e não encara mais os blogs, Twitter ou coberturas online via rede sociais com o mesmo receio e incompreensão do passado. Para o autores, “Em cinco anos mais, receber dados em tempo real de vastas redes de sensores, criar conteúdo automatizado, adquirir ou criar tecnologias que reflitam valores jornalísticos, estabelecer parcerias com diversos especialistas e instituições e fazer experiências com agregadores, animadores e performers renomados poderá ser tão corriqueiro quanto licenciar um blog”.

Como vai mudar o trabalho do jornalista?

A primeira parte do dossiê é concluída com muitas suposições e apenas uma certeza nada animadora: as redações serão cada vez mais enxutas. Apesar disso, os autores acreditam que o processo produtivo dentro dela mudará pouco: o papel de um editor, por exemplo, mudaria menos do que o de um jornalista que trabalhe com dados. A previsão é de que esse profissional, o “repórter de dados”, atue em um ambiente de alta imersão, com informações e conversações cada vez mais contínuas e em tempo real. Espera-se que o risco de cansaço consequente de tão intensa atividade seja compensado por um resultado – e aqui surge a parte otimista e possivelmente utópica da conclusão do dossiê – : “A produção de jornalismo de qualidade, relevância e impacto elevados”.

O documento aponta também que a presença de informação em dados no cotidiano jornalístico não se restringirá ao processo de apuração. Além de programar algoritmos e processar os feeds de informação em tempo real (“definir a quem pertencem esses dados, determinar o que pode ser terceirizado para outras tecnologias comerciais e o que precisa ser mantido”), será responsabilidade do jornalista monitorar sua audiência, estudar e atender às suas tendências de consumo informativo.

As relações de colaboração serão igualmente intensificadas, envolvendo tanto tecnólogos para a criação de novos sistemas, quanto especialistas, acadêmicos, outros jornalistas e, é claro, o público. Esta última relação, em particular, marca mais uma na já extensa lista de obrigações do jornalista do futuro: participar de debates em fóruns públicos e em redes sociais, de forma a “agregar valor com usuários”, será considerado imprescindível valor profissional.

O último apontamento realizado no início do dossiê diz respeito ao papel dos editores. Como todo jornalista hoje pode publicar informação, independente de estar em uma redação, a utilidade dos editores foi diminuída. Para evitar o risco de serem os primeiros nas (cada vez mais frequentes) listas de demissão em massa, já que ocupam cargos de maiores salários, os autores dão o que pode ser interpretado como uma dica de sobrevivência profissional da classe: eles também devem produzir conteúdo já que esse é, hoje mais do que nunca, o principal elemento de competição no mercado jornalístico diferenciando uma publicação de qualidade do jornalismo raso “meia-boca”.

Resenha sobre o Dossiê “Jornalismo Pós-Industrial” (Universidade Columbia) Parte II – As Instituições

Por: Camila Martinez, Cátia Lima, Juliana Almirante, Lílian Galvão, Tácio Santos e Vander dos Santos

O relatório/dossiê preparado por C.W. AdersonEmily Bell e Clay Shirky, membros do Tow Center for Digital Journalism da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia tem como título “Jornalismo Pós-Industrial: Adaptação aos novos tempos”. Composto por Introdução, três partes (Jornalistas, Instituições e Ecossistema) e conclusão (chamada de Movimentos Tectônicos), o trabalho analisa a imprensa norte-americana, porém traz lições úteis a todos os que direta e indiretamente fazem parte da indústria jornalística, independente de onde estejam e trabalhem. É na seção Instituições que focamos nossas atenções e levantamos reflexões sobre os rumos do jornalismo diante dos desafios impostos pelas novas tecnologias.

Para este trabalho, a palavra de ordem para as instituições jornalísticas diante da nova conjuntura digital é “adaptação”. O dossiê traz uma discussão polarizada sobre o futuro destas instituições jornalísticas que se divide entre a história de declínio e colapso institucional e a história de renascimento institucional. Entretanto, haveria ainda uma terceira que seria, inclusive, a mais importante de todas: a história de adaptação institucional.

Para os pesquisadores Anderson, Bell e Shirky, “o futuro da indústria jornalística será decidido pelo modo como novas instituições passam a ser velhas e estáveis e como velhas instituições se tornam novas e flexíveis”. Com isso, entende-se que instituições jornalísticas, mesmo iniciantes, podem já começar sua atuação de forma “velha e estável” se insistem em seguir a tradicional – e decadente – fórmula de se fazer jornalismo. Talvez uma melhor palavra que “estável” seria “conservadora”, visto que a empresa estaria presa a velhos hábitos de trabalho, resistente a mudanças. Por outro lado, instituições veteranas se renovariam ao passo que investem em novos processos e se adaptam às novas possibilidades tecnológicas.

Muito se fala de instituição, mas o que, de fato, isto seria? Para este relatório, instituição é uma série de normas sociais que criam padrões estáveis de comportamento e não se limitam à estrutura física da empresa. Justamente pelo fato de possuírem hábitos solidificados, as instituições, em geral, se mostram resistentes a mudanças, pois se questiona a eficiência econômica, o valor normativo e o imperativo administrativo desta. Porém, a adaptação não é algo impossível. Os autores comparam as instituições jornalísticas capazes de se adaptar com navios de guerra: quando enfim mudam de curso, avançam com força e velocidade impressionantes.

Antes de tudo, percebe-se que é preciso haver uma mudança de pensamento de editores e gestores e a presença de processos dificulta mais o avanço do que mesmo a ausência de dinheiro. Em tempos de crise nos negócios jornalísticos, com insistente declínio de investimentos publicitários, afirmar que a falta de verba é um problema secundário ressalta fortemente a necessidade, urgência e dificuldade de se alterar a mentalidade de editores e gestores.

Quando observamos o passado, vemos que mudanças no jornalismo vêm sendo feitas, pouco a pouco. Alterações não são uma novidade, não são uma necessidade dos últimos anos apenas. No século XIX, instituições jornalísticas passaram a cobrir os fatos de forma setorizada, o que resultou, com o tempo, nas editorias que hoje integram os jornais.

Com a internet, as primeiras instituições jornalísticas começaram, na década de 1990, a construir seus sites que, a princípio, eram espaço para uma mera transposição do conteúdo de suas edições impressas. Com o avanço tecnológico, entretanto, esta prática já não era mais satisfatória, o que obrigou uma reestruturação da prestação de informação em meio digital, desta vez com o uso de hiperlinks, interatividade, galeria de imagens, vídeos, etc. Nos últimos anos, tem crescido a necessidade de haver uma nova reestrutura, desta vez repensando processos para se adaptar às mais novas tecnologias a serviço do jornalismo.

Em relação às dificuldades para adaptar as práticas jornalísticas às novas demandas da era digital, o ex-editor de interação e mídias sociais do Wall Street JournalZach Seward, avaliou, em depoimento, que o sucesso de jornais tradicionais é mais um obstáculo para a adaptação. O antigo modelo de produção abriga determinados processos institucionais que limitam o jornalista, a exemplo dos sistemas de gestão de conteúdo. Como solução, o relatório da Universidade de Columbia aponta que o conservadorismo deve ser deixado de lado em nome de mudanças necessárias e essenciais à sobrevivência do negócio.

E muitas instituições jornalísticas tradicionais não sobreviveram à crise atual do jornalismo. Outras tentam se adaptar aos novos tempos, ao mesmo tempo em que surgem empresas com formatos e práticas inéditos. Entretanto, pode-se dizer que todas, de uma forma ou de outra, foram abaladas com as novidades da tecnologia.

É importante agora observar a adaptação das organizações tradicionais e a transformação de novas empresas jornalísticas (como um blog de notícias, por exemplo) em instituições estáveis, consolidadas. Um bom exemplo de evolução institucional é o Talking Points Memo (TPM), lançado em 2000 como um simples blog político individual. Com a ajuda financeira dos leitores, começou a contratar jornalistas em 2006. Com o passar do tempo recebeu investimentos, mudou sua aparência, foi premiado e sua redação já somava 28 membros em 2012. O TPM foi pioneiro no jornalismo interativo, com o uso de sugestões, informações e textos explicativos dos leitores nas reportagens.

Aparência do TPM em 2000

Aparência do TPM em 2000

Com a progressiva queda da receita publicitária, a previsão óbvia é de que as instituições serão ainda menores, haverá mais cortes de pessoal e de orçamentos. “Fazer mais com menos”, que já é uma espécie de mantra nas redações, será uma regra. Para se adaptarem às transformações culturais que ocorreram nas ultimas décadas e sobreviverem na era digital, as instituições deverão encontrar novas formas de gerar receita e os jornalistas precisarão dominar novas habilidades.

Se no antigo modelo, a meta final da produção era um produto único e acabado, no meio digital o conteúdo jornalístico pode ser complementado, modificado e reutilizado indefinidamente. O jornalista terá que compreender que o conteúdo não é mais descartado no primeiro uso. Em vez disso, é infinitamente reciclável e deve ser projetado para ser o mais reutilizável possível em outras plataformas, outros aparelhos, em novas matérias e até mesmo por outras organizações de comunicação numa interação perpétua. Para tirar proveito disso, o fluxo de trabalho deverá ser alterado para comportar essas novas possibilidades.

O jornalista do século XXI tem um sem número de novas fontes a serem incorporadas ao processo de produção jornalística, e uma forte tendência atual é a utilização de bases de dados como ferramenta de armazenamento e construção de novos conteúdos narrativos. Porém, as alterações não podem partir apenas destes profissionais. As instituições devem montar uma organização e um fluxo de trabalho na redação que deem respaldo ao jornalista nessa empreitada de reinvenção da indústria, pois esta, tal qual conhecemos, tem seus dias contados. Por outro lado, a atividade do jornalismo segue mais viva do que nunca.

 

Resenha sobre o Dossiê “Jornalismo Pós-Industrial” (Universidade Columbia) Parte III – O Ecossistema

Por: Anaíra Lobo, Daniele Rodrigues, Lorena Vinturini, Luana Azevedo, Simone Melo, Tayse Argôlo e Wendel Silva

A terceira parte do dossiê, intitulada “O Ecossistema”, apresenta o conceito de “ecossistema jornalístico” para ilustrar as principais mudanças ocorridas na prática jornalística e nas relações entre os profissionais e as grandes organizações com o público desde a expansão da internet. De acordo com o dossiê, a popularização da internet “derruba muitas das velhas verdades sobre a imprensa e a mídia em geral”, uma vez que possibilita ao cidadão comum conectado a “produzir, copiar, modificar, compartilhar e discutir conteúdo digital” de forma veloz e em larga escala.

Para exemplificar essa quebra na linearidade da produção jornalística comum até o século XX – em que havia uma clara distinção de quem era jornalista profissional, referenciado como fonte e produtor de notícias, de quem era apenas consumidor e amador – o dossiê apresenta três casos em que o público deixa de ocupar apenas a posição de consumidor, sendo também produtor e divulgador da notícia.

No primeiro caso, em 2002, um historiador desmascarou um senador segregacionista quando, através de publicações em um blog, divulgou para o grande público diversos comentários preconceituosos que o político já havia feito ao longo de sua carreira. Um tempo depois do senador Lott ter dito que um de seus comentários foi um deslize, o historiador procurou Josh Marshall, que mantinha o blog Talking Points Memo (TPM), para mostrar uma lista de comentários racistas que Lott fizera desde a década de 1980. O arquivo de comentários de Lott era pessoal e o blog de Josh Marshall era considerado amador, entretanto, a divulgação das informações no meio digital fez com que Lott perdesse a liderança da bancada republicana.

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No segundo caso, o dossiê mostra que transmitir uma mensagem única por um único canal, como as redes de televisão e rádio, com a expansão da internet, já não significa ter o controle de uma determinada situação. Em 2005, quando o sistema de transportes londrino foi alvo de um atentado a bomba, o chefe da polícia metropolitana de Londres declarou à emissoras de rádio e TV que o problema era uma pane elétrica no metrô. Entretanto, pessoas comuns começaram a postar na internet fotos dos destroços dos lugares afetados,  e, analisando as imagens, percebeu-se que as mesmas contradiziam a declaração do policial. Cada post desses chegou a milhares e milhares de leitores.  Assim, o responsável pelas investigações voltou novamente ao ar em menos de duas horas para declarar que o episódio tinha sido realmente um atentado e que não havia mais informações a respeito dos atentados.

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No terceiro caso, ocorrido em 2010, uma série de reportagens sob o título “Dollars for Docs”, do site americano ProPublica, expôs o fluxo de fundos que escoa da indústria farmacêutica para médicos que receitam seus fármacos. Essa nova forma de investigação e exposição dos dados para o público comum feita pelo ProPublica trazia várias novidades, incluindo um banco de dados montado a partir de informações que companhias farmacêuticas são obrigadas a divulgar de forma simples e esmiuçada para o grande público. A reportagem ainda está no ar e ainda é possível pesquisar online sobre quanto as indústrias farmacêuticas movimentam nos Estados Unidos. Segundo o dossiê, o “Dollars for Docs” já possibilitou que outras 125 publicações, como a Forbes ainda este ano, lançassem reportagens sobre o tema devido à série original do site (por não ter fins lucrativos, o ProPublica pode atuar tanto no varejo como no atacado da notícia).

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O que o dossiê afirma é que, sobretudo por causa da disseminação da internet, não se pode pensar que o jornalismo está chegando ao fim, mas sim a linearidade do processo jornalístico e os conceitos de “amador” e “profissional”. Novas ferramentas digitais podem acelerar padrões atuais de apuração, edição e publicação de notícias. A internet possibilita que “consumir” seja apenas uma das funções do público, se assim ele desejar. O público agora pode participar, reiterar e produzir  de forma veloz e em grande escala. “A novidade é que tornar pública sua opinião já não requer a existência de um veículo de comunicação ou de editores profissionais”.

Ecossistemas e Controle

Esse tópico do dossiê foca em como as instituições jornalísticas vêm lidando com as mudanças ocasionadas pela popularização da internet. Ele, então, resgata os modos de produção jornalístico comuns desde seu início, no século XVII, em que para imprimir e distribuir um jornal diário era preciso uma equipe grande e qualificada, fixada e presa a uma redação. Com a chegada da internet, o amador pode ser um repórter “na acepção do termo” (“reportador”): as notícias do terremoto em Sichuan, na China, do pouso de emergência de um avião no Rio Hudson, em Nova York, e de massacres na Síria partiram, sempre, de relatos de gente na cena dos fatos.

O dossiê traz que uma das reações mais comuns dos meios de comunicação tradicionais a essas mudanças é a incapacidade de executivos de jornais reconhecerem os problemas que enfrentam ou irão enfrentar. Entretanto, segundo o documento, a transição para a produção e a distribuição digital de informação alterou de forma tão drástica a relação entre meios de comunicação e cidadãos que “seguir como sempre” nunca foi uma opção e uma reestruturação na instituição jornalística se faz necessária.

Como exemplo de adaptação positiva das instituições jornalísticas a essas mudanças, o dossiê traz o caso do Daily News, que criou o projeto Storm Tracker para cobrir a passagem do furacão Irene em Manhattan.

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Dessa forma, o dossiê define que: “Para o jornalista, e para instituições que o servem, a redução de custo, além de uma reestruturação para garantir mais impacto por hora ou dólar investido, é a nova norma de organizações jornalísticas eficazes – padrão que hoje chamamos de jornalismo pós-industrial”.

Ecossistema Pós-Industrial

Essa seção do dossiê apresenta as transformações ocorridas no ecossistema jornalístico e aponta a necessidade das organizações jornalísticas de se adaptarem ao novo panorama vigente.

O documento mostra que a participação de indivíduos, massas e máquinas vem mudando a configuração tradicional de publicação, produção e apuração das notícias e que o meio, no caso a internet, proporciona a quebra da hegemonia das organizações jornalísticas no controle desse processo. Como é o caso do Wikileaks e sua ampla divulgação nos meios convencionais.

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São elencados diversos exemplos em que o indivíduo, com maior acesso a meios de publicação em tempo real, dá conta de transmitir notícias de importância jornalística antes mesmo da grande impressa noticiá-las; grupos de pessoas podem colaborar, participar e dinfundir informações; e que a utilização de máquinas no processo de compilação e compreensão de dados e acontecimentos vem aprimorando as formas de noticiabilidade.

Por fim reafirma que as atividades básicas do jornalismo, como apurar, produzir e publicar, estão sendo modificadas por formas de participação de indivíduos, grupos e máquinas.

A notícia como produto de importação e exportação

O dossiê começa este tópico com uma pergunta: “O que troca de mãos entre os participantes do ecossistema?”. Há um enfoque na reprodução comercializada de conteúdo de outros meios (syndication) e no uso de material de agências de notícias. No novo ecossistema jornalístico, proporcionado pela internet, a ideia de todo mundo produzir do zero um artigo acabado simplesmente não é o normal. Há muitas formas de reaproveitamento de notícias, sendo algumas contratuais.

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Se utilizar de matérias como da Associated Press (AP), por exemplo, é comum entre empresas jornalísticas. Hoje, é imperativo que a instituição tenha a capacidade de estabelecer parcerias (formais e informais) possibilitadas pelo novo ecossistema. Agências noticiosas como a Reuters, por exemplo, ganharam, inclusive, uma extensão brasileira.

Recomendação: aprender a trabalhar com parceiros 
As recomendações existentes neste dossiê estão voltadas para as mudanças ocorridas a partir do surgimento da internet, que gerou um novo ecossistema jornalístico, no qual suas atividades básicas – apurar, produzir e distribuir notícias – estão sendo modificadas por novas formas de participação de indivíduos, grupos e máquinas.
Neste novo ecossistema, uma das recomendações é estabelecer parcerias com indivíduos e organizações. Ainda que não esteja explícito no dossiê que tipo de parceria seria o ideal, cita exemplos como a parceria do New York Times com a rádio WNYC (a SchoolBook) para melhorar a cobertura dos dois meios na área de educação. O dossiê explicita que a forma de competição ao qual os veículos de comunicação estavam acostumados, na qual cada um tem que cobrir o mesmo evento de forma ligeiramente diferente, já era um problema quando existia muito dinheiro neste meio. Mas que, agora, essa competição é nociva. Os meios devem, portanto, pensar em maneiras de estabelecer as tais parcerias.
Neste ponto da competitividade, o dossiê exemplifica a cobertura dos Jogos Olímpicos de 2008, onde muitos fotógrafos se acotovelavam para registrar uma cena muito parecida do nadador Michael Phelps. Ligeiras diferenças são percebidas nas fotografias deste instante e foi desperdiçado custo humano e financeiro para o registro de um mesmo momento e basicamente de um mesmo ângulo.

phelps images (1) michael-phelps-200-medley-londres-20120802-04-size-598 Veja

Recomendação: descobrir como usar o trabalho sistematizado por outros

A segunda recomendação é um desdobramento da primeira. Recomenda-se utilizar o trabalho sistematizado por outros, já que hoje temos um enorme crescimento de dados estruturados e um também aumento de APIs, o que gera um aumento na colaboração sem a necessidade de solicitar ajuda ou permissão à instituição que abriga os dados. Neste sentido, buscar formas de usar e reconhecer o trabalho fornecido por estas instituições sem a necessidade de classificá-las necessariamente como “fonte” ou “fornecedor” ajudaria a ampliar o leque de colaborações.

Essa nova realidade é importante porque garante o acesso à baixo custo a um material de alta qualidade até então indisponível. No entanto, essas ferramentas alteram a organização que as utiliza porque não são ferramentas novas para fazer coisas à moda antiga e a as instituições enfrentam obstáculos para sua utilização. Os mais óbvios são a falta de capacitação técnica e visão para usá-los. Nas faculdades de jornalismo os alunos sabem mais sobre como produzir um vídeo do que sobre exploração básica de dados. Ainda que tenham surgido ferramentas que facilitem esse uso, jornalistas carecem de desenvoltura básica com números.
Em seguida vêm os obstáculos culturais. Para utilizar o trabalho sistematizado por outros, é necessário superar o que o dossiê chama de “Síndrome do não foi inventado aqui” e dar os devidos créditos às organizações que abrigam essas informações.
Além disso, as instituições jornalísticas devem, também, criar e melhorar a sua própria capacidade de disponibilizar seu trabalho para ser reutilizado por outras instituições. Essa recomendação recai na mesma questão anteriormente citada que é a competitividade do meio jornalístico. Mas o dossiê rebate: “Sempre haverá tensão entre a lógica competitiva e a cooperativa no ecossistema jornalístico. Na atual conjuntura, no entanto, o custo de não empreender um esforço conjunto subiu, o custo de colaborar sem muito ônus caiu consideravelmente e o valor de trabalhar sozinho despencou”.
Essa é uma forma de elaborar um trabalho de maior qualidade a um custo menor. Para isso, no entanto, a organização precisa vencer os obstáculos apresentados neste dossiê.

 Recomendação: descobrir como usar o trabalho sistematizado por outros

O dossiê sugere, então, algumas recomendações para otimizar o trabalho jornalístico dentro deste novo ecossistema.

Usar o trabalho sistematizado por outros aumenta o potencial na colaboração sem cooperação: quando um meio de comunicação aproveita dados ou interfaces disponíveis sem a necessidade de solicitar ajuda ou permissão à instituição que abriga os dados. Desta forma, há um acesso a baixo custo e alta qualidade. Para isso, no entanto, a organização precisa começar a tratar a redação como uma operação de importação e exportação, não como um chão de fábrica.

Recomendação: incluir links para o material-fonte

Para o dossiê, a possibilidade de inclusão de links no texto é o grande diferencial da internet para os demais meios de publicação. Na prática jornalística, a forma mais básica de link é para o material-fonte e é uma possibilidade do leitor saber mais a respeito do assunto tratado caso se interesse, sendo uma forma também de explorar o potencial infinito que a internet possui de acesso a informações.

Para o público, o link para o material de origem tem valor tão óbvio, e é tão fácil, que a organização que se recusa a fazê-lo está expressando pouco mais do que desprezo pela audiência e por normas éticas da comunicação pública.

Recomendação: não tentar aplicar peso da marca a produto menos nobre

Este tópico serve para recomendar o que não fazer, tratando-se de uma relação entre a reputação da empresa jornalística x custo de produção. É tentador, para publicações com boa reputação, achar um jeito de aplicar seu selo de alta qualidade a iniciativas novas, de baixo custo e alto volume.

Um recurso do gênero “últimas notícias de toda a internet” pode ser valioso, bem como pedir a gente nas Filipinas que redija o que é, basicamente, um texto padrão, a partir de certo conjunto de fatos. Ambas são estratégias úteis. Mas apresentar esse conteúdo como se fosse idêntico a reportagens apuradas, redigidas e verificadas com mais afinco cria riscos tanto a curto como a longos prazos – riscos que não compensam a efêmera oportunidade de arbitragem da união de uma boa marca com um conteúdo barato. Isso tudo põe em risco a reputação da empresa jornalística.

Recomendação: exigir que empresas e governos soltem dados inteligíveis

O dossiê recomenda que qualquer pessoa que lide com governos ou empresas deve exigir que dados de relevância pública sejam liberados de modo oportuno, interpretável e acessível. Os dados interpretáveis vêm em formato estruturado e utilizável, e não em PDF, por exemplo, que não permitem uma interação do leitor com o arquivo.

Além disso, os dados devem ser prontamente lançados em canais públicos na internet, e não mantidos em papel ou liberados somente mediante solicitação. 

Recomendação: reconhecer e premiar a colaboração

Organizações que oferecem subsídios e recompensas ajudam a balizar o modo como profissionais de jornalismo encaram a si mesmos e a seus pares.

O dossiê volta a citar o caso do “Dollars for Docs”, em que a ProPublica é uma organização que permite que seus dados sejam reutilizados por outras organizações, tornando-se um exemplo de colaboração a ser vislumbrado.

 

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